quarta-feira, 28 de março de 2012

Pão e Circo


O Arco de Tito




Tito Vespasiano

CARTA DO IMPERADOR VESPASIANO (41 dC) PARA SEU FILHO TITO (79 dC)



Onde o povo prefere pousar seu clunis: (cunis são nádegas em latim)


numa privada, num banco de escola ou num estádio?
Futebol também é cultura.



Hoje, para júbilo egáudio dos amantes das letras clássicas, divulgo uma carta do imperador Vespasiano a seu filho Tito.
Vamos a ela:







22 de junho de 79 d.C.


“Tito, meu filho, estou morrendo.


Logo eu serei pó e tu, imperador.


Espero que os deuses te ajudem nesta árdua tarefa,afastando as tempestades e os inimigos, acalmando os vulcões e os jornalistas.


De minha parte, só o que posso fazer é dar-te um conselho: não pare a construção do Colosseum. Em menos de um ano ele ficará pronto, dando-te muitas alegrias e infinita memória. Alguns senadores o criticarão, dizendo que deveríamos investir em esgotos e escolas. Não dê ouvidos a esses poucos. Pensa: onde o povo prefere pousar seu clunis:


- numa privada, num banco de escola ou num estádio?
Num estádio, é claro.


Será uma imensa propaganda para ti. Ele ficará no coração de Roma por


omnia saecula saeculorum, e sempre que o olharem dirão:


- Estás vendo este colosso? Foi Vespasiano quem o começou e Tito quem o inaugurou’.Outra vantagem do Colosseum: ao erguê-lo, teremos repassado dinheiro público aos nossos amigos construtores, que tanto nos ajudam nos momentos de precisão.


Moralistas e loucos dirão, que mais certo seria reformar as velhas arenas. Mas todos sabem que é melhor usar roupas novas que remendadas.


Vel caeco appareat (Até um cego vê isso).
Portanto, deves construir esse estádio em Roma.Enfim, meu filho, desejo-te sorte e deixo-te uma frase:


Ad captandum vulgus, panem et circenses (Para seduzir o povo, pão e circo).
Esperarei por ti ao lado de Júpiter”.




PS: Vespasiano morreu no dia seguinte à carta. Tito não inaugurou o Coliseu com um jogo de Copa, mas com cem dias de festa. Tanto o pai quanto o filho foram deificados pelo senado romano.





Assim como a gente de Brasília construirá monumentais estádios em Natal, Cuiabá e Manaus, mesmo que nem haja ludopédio por esses lugares.


Só para você ter uma ideia, o campeonato de Mato Grosso teve média inferior a mil pessoas por partida, e a Arena Pantanal, em Cuiabá, terá capacidade para 43.600 espectadores.


Em Recife haverá um novo estádio, mas todos os grandes clubes já têm o seu.


Pior será a arena de Manaus: terá 47 mil lugares e, no campeonato estadual, juntando os 80 jogos, o público total foi de 37.971, menos de 500 torcedores por jogo.


As gentes da Terra Papagalli não ligaram nem mesmo para o exemplo dos sul-africanos, que construíram cinco novos estádios e quatro são altamente deficitários.O pão e o circo continuam...



Recebi esta matéria da Ana Paula, é altamente elucidativa, praticamente atual. Obrigada, filha!

terça-feira, 27 de março de 2012

Sobre notas promissórias/ Uma explicação para meus filhos.




Meus filhos,



Adorei a metáfora de voar com asas alheias feita pela Ana, pois é o que temo para o nosso país.



O Brasil está sendo levado a acreditar que está imune à crise mundial como se estivesse situado em outro planeta.



Parece um Ícaro querendo chegar ao sol com asas de cera.



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Tudo é muito conveniente para os tais "submergentes" que cobrarão toda esta ilusão que nos parece que estar sendo incutida de graça.



Toda esta história de minha infância foi só para justificar este trauma de saber intuitivamente que as coisas não iam tão bem como pareciam, por uma falta absoluta de administração, até pela ignorância das regras do mercado



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-Quem pagará por este clima de euforia injustificada, uma vez que as diferenças sociais em nosso país aumentam dia a dia?



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Estive, Ana, por tua causa, na Espanha dos tempos áureos. A mídia a alçava aos tais píncaros não sei do que. Deu no que deu. O turismo não segurou as pontas.
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Pela primeira vez não estou escrevendo sobre política, mas sobre sentimentos, já que confesso não entender de economia política, mas apenas de sentí-la. E atualmente ela esta sensação de alguma coisa errada paira como nuvens escuras sobre minha cabeça.



Muitos e muitos leitores não entenderam. O Ricardo, meu filho, citou até a China, aquela horrorosa ditadura que explora o trabalho infantil. Não é um bom exemplo. Crescer não respeitando regras básicas do mercado e dos direitos humanos, terá seu retorno, espero. Citou as diferenças da época de minha infância com as da atual. Nada a ver.



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Desculpem-me ser assim. Minha amiga Joana Kalinovski, ao comentar o texto, lembrou do tempo que estudávamos no ginásio: "-você,de rabo de cavalo,ilustrando bem e prometendo muito ser a mulher de agora, sempre atraindo pessoas curiosas por ouvir o que tua descontração absurda tem a dizer".



Descontração absurda!! achei o máximo! Ah! e ela ainda disse que se orgulha de mim, linda Joana!



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Não dá pra ignorar os possíveis efeitos da Copa do Mundo, das Olimpíadas (como eu desejo estar enganada) em nossas vidas: o desvio de dinheiro público, as licitações fraudulentas, a construção de inúteis elefantes brancos, o caótico transporte aéreo e terrestre, toda esta corrupção jogada em nossas caras todos os dias. Eu me sinto constrangida só em pensar o que pode acontecer.



De uma coisa tenho certeza: os ricos ficarão mais ricos e os pobres igualmente pobres.



Um Judiciário falido e desmoralizado (desculpe Ana). Um Executivo e todos os seus "compromissos" e "alianças" dados a uma mulher séria, mas impotente. Um Legislativo cômico se não fosse trágico. E é o povo, somos nós que damos poder aos ridículos políticos. Ridículos somos nós, eles são mesmo meliantes (existem exceções como o Dr. Rosinha, por exemplo).



É a metafórica nota promissória disso tudo que me assusta, como a real nota promissória me assustava.



Eu era muito pequena pra entender, mas sentia.


Os entendimentos mudam, passam, mas os sentimentos indecifráveis ficam, não importa a época em que os vivenciamos.



Beijo,



mãe



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domingo, 25 de março de 2012

Guido Mantega e as minhas notas promissória

Foto tirada pelo meu amigo Renê em um longínquo Encontro Nacional dos Auditores do Trabalho. Esta foto não tem nada a ver com o texto, mas eu estou aparentemente tão feliz e otimista que resolvi colocá-la neste texto sombrio para contrabalançar.




Uma boa parte de minha infância vivi em um ambiente extritamente masculino. À noite fazia lições da escola no balcão do botequim do meu pai e frequentava a barbearia conjugada ao boteco, onde enleada em um cobertor, no colo de um dos operários do bairro escutava jogos de futebol do Rio de Janeiro em um grande rádio de madeira. Quando eu dormia, sempre enleada no tal cobertor um daqueles operários, fregueses, amigos me colocava na cama.
Minha casa ficava atrás do botequim e da barbearia, entrávamos ou pela porta que ligava o boteco à nossa sala de visitas, ou por um portão que dava para a cancha de boche que passávamos rente para entrar em uma pequena área que dava na cozinha.
Quando não tinha futebol escutávamos, na cozinha, programas radiofônicos da Rádio Nacional..."o sombra sabe o mal que se esconde..."etc e tal.
Eu me enrodilhava na minha coberta e procurava um colo disponível e aconchegante, ora o do meu pai, ora um homem chamado Carlos que me tratava como se fosse sua filha.
Morava conosco.
Alugávamos um quartinho para ele bem perto da cozinha, sala de jantar, de visitas. Um corredor enorme que abrigava um fogão à lenha, uma grande mesa para as refeições, o Rádio com cadeira embaixo para os ouvintes.
Cresci assim, descalça, roubando frutas em um mato de um tal de Frenha, jogando futebol, balas Zequinhas no bafo e um jogo chamado caçador, um tanto violento. Tínhamos de atingir os nossos adversários com boladas violentas para marcar pontos. .....
Fazendo este "flash back" concluo que fui uma criança livre, sem amarras, punições, sem ser repreendida ou castigada. Meus pais trabalhavam e era raro mães trabalharem fora.

Minha mãe se danava em atender o botequim que de dia era um "armazém" de secos e molhados, que supria de alimentos a vizinhança.
Lembro das grandes caixas de cereais à granel onde os fregueses se sentavam.
Todas as compras eram no "caderno" ou seja, fiado, no fim do mês eram feitas as contas das despesas e quase sempre pagas.
Durante o dia meu pai pintava paredes. De dia minha mãe e minha irmã atendiam os fregueses. De tarde minha mãe ia dar aula em uma Escola Isolada, minha irmã tomava seu posto mal chegada da Escola Normal. Meu pai, à noite, fechava as portas e aquilo se transformava em uma festa. Jogo de truco, bebida à vontade e por causa do álcool grandes e pequenas brigas entre amigos. Meu pai jogava-os no meio da rua. Uma vez empurrou um invocado que picava seu fumo e ele mais que depressa enfiou o canivete no braço paterno, o mais amado. Comoção árabe...rs...
Iria longe contando dos torneios de futebol, dos bailes carnavalescos e dos bailes "oficiais".
Paro aqui e lembro, ou melhor sinto a sombra que pairava sobre meus pais, minha casa, sobre mim e eu não entendia. Eu sentia uma sensação de perigo iminente quando o mês ia terminando e tinha relação com dinheiro, o que entrou, o que saiu e tudo isso se resumia em duas palavras fantasmagóricas ditas em voz baixa: nota promissória. Elas eram referentes às compras que meus pais faziam para o botequim.Muitas vezes faltava dinheiro para pagá-las.
Meu pai não colaborava muito para que houvesse lucro e minha mãe era implacável. Brigavam feito dois cães furiosos. Minha mãe ameaçava sumir de casa. Era o caos nosso de cada mês. Foi indo até que minha mãe resolveu vender o "estabelecimento"
Fiz o normal, o curso de Direito. Minha mãe aumentou minha idade, não perguntem como, e eu, já aos 14 anos trabalhava no Estado, aos 16 lecionava na escola do bairro.
O curso de Direito me proporcionou alguns cursos de economia política e congêneres. Confesso que colei. Tudo era muito complicado e continua sendo. E cada vez mais.

O que são debêntures, Nasdak, oscilações do mercado atingindo o mundo. Vejo lindas jornalistas explicarem todo este embroglio, sorridentes com se fossem Anas Maria Bragas da economia.
Dão respostas.
Continuo sem entender.
Sei que é o dinheiro que move o mundo capitalista( e o socialista). Sou informada diariamente pelos meios de comunicação da corrupção, do desvio do dinheiro público enquanto o trabalhador, o que constrói, planta e colhe vive das migalhas que sobram destes grandes banquetes.
De repente todo mundo ficou otimista e o nosso país foi alçado aos píncaros sabe-se lá do que.

Perdoem-me os doutores, os entendidos no assunto, mas a menininha que fazia seus deveres de casa no balcão de um bar não consegue relaxar.
Burra! Não estudou quando pode e agora tem uma certeza instintiva que apesar de tudo parecer bem, no horizonte as nuvens estão cinzentas e que teremos de pagar as notas promissórias de todas estas dívidas, de todos os compromissos assumidos e mal gerenciados. (as festas do meu pai depois do expediente levaram à venda do armazém)
Não tenho mais colo, os operários do meu bairro italiano morreram todos, o barbeiro que tinha uma orquestra chamada Pinguim e que eu acompanhava em serenatas tocando pandeiro, também já morreu. Meus pais, duas irmãs, todos os tios, muitos amigos do peito já não estão mais ao alcance do meu olhar e do meu tato.




Porque esta ameaça velada e angustiante de uma entidade chamada Nota Promissória voltou a pairar, como nuvens escuras, sob minha cabeça?




Se tudo parece tão simples assim - Sr.Guido Mantega, o que o senhor sabe sobre notas promissórias??
Nédier




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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Desventuras de uma avó meio manca (riam à vontade)


Meus queridos,
I survive !! ou melhor estou sobrevivendo a tudo. Imaginem esta mulher desligada, desnorteada, atrapalhada, com dores diversas: ombro, perna, cabeça,falta alguma coisa? Os rins e os órgãos dos países baixos: útero e adjacências estão legais. Obrigada, Senhor dos Anéis!!Imaginem eu (ou esta mulher) atendendo dois netos de 10 e 6 anos e supervisionando a casa do meu filho cuja mulher, a Cláudia, foi pra Holanda. (tenho ajuda da minha empregada é claro, mil confusões, nenhuma de nós duas conhece nada sobre a casa e os hábitos dos meninos).
Meus netos têm raciocínio rápido e são extremamente irônicos. Eu mereço!!
- Vó, será que você não está ficando caduca?
Isso quando eu não peso prato de comida em um restaurante à quilo (que odeio) e o garçon vem rapidamente roubar meu prato para pesá-lo. É meio comum para mim, para os "menininhos", não.
- Estou caduca, mas é falta de educação dizer isso para a vó!
- Por quê

- ????
Meu filho foi levar a mulher no aeroporto e ameaçou-a:
- Quando você voltar vou estar com uma loiraça tomando conta de tudo.
- Se for manca, é a vó Nédier - diz o Pedro. Gracinha!!
Continuo querendo telefonar no controle remoto da televisão e vice-verso.
Continuo me perdendo nas ruas e brigando com os guardas. Estaria presinha da silva por desacato "à autoridade" e levado uns tabefes se não dirigisse meu carro lindíssimo se eu não tivesse esta falsa cara de rica e não fosse loura, ou seja poder e burrice. (Já contei que comprei um Mercedes usado 66 ou 67, não sei. Impecável?)

- Vó, você me compra o DVD do Michel Teló, tem no posto da esquina e custa 28 reais? (o João,6)
- Compro.
Compro qualquer coisa para vê-los de bom humor.
As últimas:
1.Passei o dia todo assistindo televisão porque eu estava meio imobilizada.Escutei sem parar que o horário de verão ia acabar. Não tive dúvidas ontem ATRASEI uma hora todos os relógios da casa.
2.Escovo os dentes enquanto tomo banho, uso aquelas escovas à pilha. A escova caiu no piso do banheiro e eu não percebi. Desliguei o chuveiro e um barulhinho estranho continuava. Fechei os controles de água, esmurrei o chuveiro, desliguei a luz do setor e nada. Pensei:
- Esta porra vai explodir!!

Chamei o Ode que já estava no seu quarto e graças aos Deuses do Olimpo, antes que ele levantasse enfurecido como sempre faz quando interrompo seu sono, vi a escova de dente ligadinha trepidando no chão. Por hoje é só.
Nédier
obs.: ontem, misteriosamente amanheci com o lado esquerdo do rosto inchado.
Nada nos dentes e implantes, nada na garganta, nenhuma picada de inseto e nenhuma dor.
Espero que volte ao normal. Rezem...rs...

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Foto: tirada pelo Ode em Guaraqueçaba antes dos acontecimentos relatados. Eu cansada depois de umas pingas.

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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Terceiro Ato da Vida



Meus amigos


Abaixo está o vídeo de Jane Fonda: é muito bom, também para os jovens; é uma delícia assistí-la !!


http://www.ted.com/talks/lang/pt-br/jane_fonda_life_s_third_act.html



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Transcrição da palestra


É para ler e pensar:

"Das muitas revoluções no último século, nenhuma tão significativa quanto à da longevidade.


Estamos vivendo em média, 34 anos a mais do que nossos bisavós.


Um novo período de vida que foi adicionado à nossa expectativa de vida e nossa cultura não se posicionou sobre o que isto significa.



Ainda estamos vivendo com o velho paradigma da idade como um arco: você nasce, atinge o auge na meia-idade e declina para a decrepitude.



Muitas pessoas hoje, filósofos, artistas, médicos, cientistas, estão lançando um novo olhar para o que chamo de terceiro ato: as três últimas décadas da vida. Eles perceberam que isso é na verdade, um estágio de desenvolvimento da vida com sua própria significância, tão diferente da idade madura quanto a adolescência o é da infância.


- Como usamos esse tempo?


- Qual é a nova metáfora para o envelhecimento?


Passei o último ano pesquisando sobre este assunto e descobri que a metáfora mais adequada para envelhecimento é uma escadaria: a ascensão para o topo do espírito humano, trazendo-nos para sabedoria, completude e autenticidade.


A maioria das pessoas acima de 50 sente-se melhor, é menos estressada, menos hostil, menos ansiosa e dizem que até mesmo mais felizes. Não quero romantizar o envelhecimento. Não há garantia de que ele seja um tempo de fruição e crescimento. E não há muito que possamos fazer sobre isso.


Então vamos examinar o que podemos fazer para tornar esses anos adicionais bem sucedidos e fazer a diferença. Deixe-me dizer algo sobre a escadaria, uma metáfora esquisita para idosos, considerando-se o fato de que muitos idosos são desafiados por escadas.


O mundo inteiro obedece uma lei universal: Entropia, a segunda lei da termodinâmica, significa que tudo no mundo, tudo, está num estado de declínio e decadência, o arco.


Há apenas uma exceção a essa lei universal e isso é o espírito humano, que pode continuar a evoluir em direção ao topo - a escadaria - trazendo-nos para a completude, autenticidade e sabedoria.


Essa ascensão pode acontecer mesmo face a desafios físicos extremos. Há cerca de três anos atrás, li no New York Times, que um homem chamado Neil Selinger (57 anos), advogado aposentado tinha se juntado ao grupo de escritores da Faculdade Sarah Lawrence. Dois anos depois, ele foi diagnosticado com uma doença fatal que devasta o corpo, mas a mente permanece intacta.


Em seu artigo, Selinger descreveu o que estava acontecendo: "À medida que meus músculos enfraqueciam, minha escrita se tornava mais forte. À medida que perdia minha fala, ganhava minha voz. À medida que encolhia, eu crescia. No momento em que perdi tanto, finalmente comecei a encontrar a mim mesmo".


Neil Selinger é a personificação da subida da escadaria em seu terceiro ato.
Todos nascemos com espírito, mas, às vezes, ele fica soterrado debaixo dos desafios da vida, abusos, negligências...


Muitos de nossos relacionamentos não tiveram uma conclusão e assim podemos nos sentir inacabados. A incumbência do terceiro ato é terminar esta tarefa.


Para mim começou no meu aniversário de 60 anos.


- Como era para eu viver?


- O que era para eu realizar nesse ato final?


- E percebi que: a fim de saber para onde estava indo, eu tinha que saber onde estivera.


Voltei e estudei meus dois primeiros atos, tentando ver quem eu realmente era e não o que meus pais ou outras pessoas quisessem que fosse.


- Quem foram meus pais, não como pais, mas como pessoas?


- Quem foram os meus avós?


- Como eles trataram meus pais? Esse tipo de coisas.


Descobri que esse processo é chamado pelos psicólogos "análise da vida". Ele pode dar nova significância, clareza e sentido à vida. Você pode descobrir, que muitas coisas que você costumava pensar que era falha sua, ou pensar sobre você mesmo, na verdade, não tinham nada a ver com você. E você é capaz de voltar, de mudar sua relação e se libertar de seu passado e perdoar a você mesmo.


Em seu livro chamado "Em Busca de Sentido", Viktor Frankl, psiquiatra alemão que passou cinco anos em um campo de concentração nazista, escreveu: "Tudo que você tem na vida pode ser tirado de você exceto a liberdade de escolher como você responderá as situações. Isso é o que determina a sua qualidade de vida, não se é rico ou pobre, famoso ou anônimo, saudável ou sofredor. O que determina sua qualidade de vida é como se relaciona com a essas realidades e que tipo de significado atribui a elas".


Talvez o objetivo principal do terceiro ato seja voltar e tentar mudar a relação com o passado.


Acontece que somos capazes de proceder assim, isso se manifesta pelos caminhos neurais do cérebro.


Veja, se você ao longo do tempo reagiu negativamente a eventos passados e a pessoas, caminhos neurais que são configurados por sinais químicos e elétricos são criados no cérebro.


E com o tempo, esses caminhos neurais se estabelecem e se transformam em normas que nos causam estresse e ansiedade.
Se puderem voltar e alterar seus relacionamentos e eventos do passado, os caminhos neurais podem mudar. E se puder manter sentimentos mais positivos sobre o passado, isso se tornara um novo modelo.


"Não são as experiências que nos tornam sábios, e sim refletir sobre as que tivemos”. Somos os sujeitos de nossas próprias vidas. Mas muitos, se não a maioria de nós, quando alcançam a puberdade começam a se preocupar com ajustar-se e ser popular, tornando-se o sujeito e objeto da vida de outras pessoas.
Agora, no terceiro ato, talvez seja possível para nós percorrermos de volta o círculo de onde começamos. E se pudermos fazer isso, não será apenas para nós mesmos.


Os mais velhos são o maior contingente demográfico no mundo. Se pudermos voltar e redefinir a nós mesmos, nos tornando completos, isso criará uma mudança cultural no mundo e será um exemplo às gerações mais jovens para que elas possam repensar sobre suas próprias expectativas de vida."
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

- Ou você prefere que eu seja puta? II / O Vazio Inominado



Meus queridos,
Além de poeta e minha amiga, a Rosane Coelho é psicanalista.
Transcrevo na íntegra o e-mail que ela me mandou sobre a neurose que eu tratei no texto anterior. É uma colaboração tão valiosa que não posso deixar de compartilhar com vocês.
Nédier, TVF

Nédier do meu coração
Como sempre, fico feliz em falar com você.
Acho um espetáculo esse seu interesse pela neurose e, particularmente, pelo ciúme doentio.
A psicanálise define neurose como a conseqüência da dificuldade de um determinado ser humano lidar com alguns conflitos e traumas inconscientes.
Como todos nós temos essa dificuldade em graus diferentes e em diferentes áreas de nossas vidas e, levando em consideração que sua origem mora no inconsciente, concluímos que somos todos neuróticos.
O que varia é a intensidade, a origem e o grau de afetamento dessas neuroses na nossa vida diária.
O neurótico é incapaz de resolver determinados conflitos (cada um "elege" o seu) de forma satisfatória. O que pra você pode ser um acontecimento normal, pro outro parece o fim do mundo. O que pro outro é um acontecimento normal, pra você pode ser um problema sem solução, incapacitante.
Essa questão do ciúme patológico é uma forma de neurose.
A psicanálise estuda o "vazio inominado". Todo ser humano carrega esse buraco que não tem nome e do qual ele não tem consciência, embora passe sua vida inteira tentando preenchê-lo. Tentando suprir essa falta. E essa busca é vã. A solução talvez seja conviver com esse vazio.
O vazio nos move.
A falta nos move.
A busca nos move.
A crise nos move.
Já que você me instigou com o assunto, que tal tentar relacionar a busca de preencher o vazio com o ciúme doentio?
O ciumento, inconscientemente, vê o objeto de seu ciúme como o preenchedor do vazio inominado.
Ele não pode perder esse recheio de jeito nenhum.
Sem o recheio o buraco abre de novo e ele não consegue conviver com essa situação.
O ciúme doentio não é uma prova de amor ao outro.
Esse outro não é sentido como outro, mas sim como um complemento da integridade psíquica do próprio ciumento.
Esse ciúme uma forma de defesa da integridade do ciumento.
É uma forma de narcisismo secundário.
Não é uma relação de amor. É controle do outro para que a integridade do ego ciumento não se perca. Pensa nisso.
Depois a gente conversa mais sobre o ciumento obsessivo e sobre aquele que é o alvo de seus ciúmes. Afinal, eles se necessitam e se completam.

Beijo
Até a próxima
TVF


Obs.: TFV é o tratamento carinhoso usado entre eu e a Rosane. São as iniciais de um filme magistral que trata de uma linda amizade entre duas mulheres. O filme é "Tomates Verdes Fritos" e é belíssimo!!

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

- Ou você prefere que eu seja puta?







Putas ou prostitutas são mulheres que usam seu corpo para ganhar sua vida. Trabalham muito para sobreviver e até para sustentar suas famílias e há quem as chamem de mulheres de vida fácil.
Trabalhei no Ministério do Trabalho como auditora fiscal do Trabalho fiscalizando casas noturnas onde tive um contato direto com estas profissionais do sexo.
A maioria delas não teve outra opção. Pobres, filhas de mães solteiras ou pais separados. Uma grande parte delas foi abusada sexualmente quando criança ou tocada de casa por um pai autoritário e violento. São atiradas aos grandes centros atraídas com falsas perspectivas de uma vida melhor. Elas só têm a oferecer um resto de infância e juventude para este tipo de trabalho.

Depois destes comentários rasos, volto a escrever sobre neuroses as quais pesquiso com ajuda de uma amiga psicanalista. Neuróticos compulsivos por compras, jogos, ciúmes, etc.
Um psicólogo que citei num texto anterior sobre neuroses escreveu que: quem casa ou vive com este tipo de pessoa compra uma passagem para infelicidade. Adverte também que o companheiro do ciumento compulsivo não é vítima, mas um dependente desta neurose para se sentir amado, importante, poderoso e se engana com esta ilusão. O ciumento compulsivo não ama, a não ser a si mesmo e considera o companheiro um objeto de sua propriedade.
O que motivou esta escrita foi a história de um homem que eu respeitava até então. Durante alguns anos ouvi suas queixas sobre a repressão que sofre por parte de uma mulher anti-social que o mantém sob controle absoluto. De acordo com ele, só sai para o trabalho onde também é controlado por telefonemas.
Para aceitar esta situação durante anos deve se sentir amado por esta mulher, quando na verdade é um dependente de uma neurótica que deveria ser tratada por um terapeuta.






Conheci mulheres cujos maridos não as deixam viver a ponto de prendê-las em casa com cadeado.
Para fazer um paralelo com a história da ciumenta possessiva, imaginem esta mulher subjugada pelo marido ouvir e aceitar o argumento que o marido usa para subjugá-la.
- Quando você me conheceu eu já era assim, ou você preferia que eu usasse drogas?
Este argumento é tão ridículo que provocaria riso se não fosse triste. O fato dele não ser drogado lhe dá a permissão de tratar a mulher como se ela fosse um objeto?!!
Os jornais trazem diariamente notícias de vítimas fatais desta neurose.






O homem que conheci e respeitava se dizia vítima de uma ciumenta compulsiva. Não saem de casa, a mulher não tem amigos, é agressiva e mal-educada (não tem condições de educar seus filhos).
Sugeri que ele procurasse um terapeuta para tratá-la e ele se apavorou só em pensar na reação que ela teria. Hoje penso que talvez este pavor é que ela sare.
Há semanas ele me confessou que teve uma conversa séria com a mulher e ficou convencido com o argumento que ela usou:
- Desde que você me conheceu há 10 ou 15 anos atrás eu já era assim ou VOCÊ PREFERIA QUE EU FOSSE PUTA?
Esta pergunta maluca é que motivou eu escrever sobre as prostituta no início.
Não há o que comentar. Eu fiquei muda. Vi-o, pela primeira vez, como um dependente da neurose da mulher (que Deus os conserve juntos e infelizes para sempre).
Não há como respeitar ou manter qualquer tipo de vínculo com um homem sem auto-estima, sem amor próprio que depende da loucura da mulher para se sentir lindo, importante, gostoso e sei lá mais o quê.






É uma pena!!